Nossa Igreja nos convida insistentemente a ir aos afastados. Mas logo três perguntas se impõem: quem são estes afastados? De onde se afastaram? Por que se afastaram? Quando nós olhamos as estatísticas oficiais, anos atrás 98 % dos brasileiros se declaravam católicos e hoje seria bem menos. Mas na realidade se nós olhamos os frequentadores habituais de nossas missas dominicais, este número desde sempre girava em volta de 12 %. Se nós olhamos ocompromisso social e a transformação sócia econômica de nossos cristãos, desde sempre nosso continente foi o continente da miséria, das grandes massas e da injustiça social institucionalizada com imenso abismo entre uma minoria riquíssima e uma grande maioria de empobrecidos, de modo que o fermento do Evangelho nunca conseguiu penetrar nossa vida social.

1972425_1665101850382417_5028493557216860243_nLambert Noben é religioso belga, Missionário dos
Operários. Atua pastoralmente no Brasil a mais de
45 anos, com atenção especial para a dimensão
social da fé; escritor de mais de 20 livros, dedica
grande parte de seu tempo aos movimentos de
jovens e casais. É ainda Capelão do Colégio Nazaré,
Pároco de São João Batista e Conselheiro Geral de
sua Congregação.

Mesmo assim, sabemos todos que quando a Igreja do Brasil assumiu um compromisso mais libertador, a ditadura militar importou maciçamente o pentecostalismo norte americano para neutralizar a ação da Igreja Libertadora já que eles espiritualizam a religião, tirando sua força de fermento transformador.

Sabemos que Jesus, quando começou a falar do pão de vida e pregar a cruz, as imensas multidões ávidas de milagres se afastaram e quando seus discípulos atiraram sua atenção sobre isto ele simplesmente falou: “vocês querem ir também?” mas, não retirou uma palavra de sua mensagem. Ele chamou maldita a  geração que pede sinais milagrosos e falou que para ser seu discípulo tem que pegar toda dia sua cruz e segui-lo. Não prometeu riqueza nem vida fácil a ninguém, mas sim perseguição e calúnia. Ele falou que sua lei é o amor, e sabemos muito bem que amar não é fácil, amar é muito difícil porque exige de nos espírito de abnegação, de sacrifício e de renúncia, vencendo nosso comodismo e egoísmo vaidoso. Para não ter que amar fizemos do cristianismo um montão de devocionismos para não ter que viver o Evangelho. Por isso não devemos ir apenas aos afastados de nossos cultos, mas amar a todos de um amor evangélico, principalmente aos afastados da vida digna de uma pessoa humana: os empobrecidos, os doentes, os excluídos, os viciados, os idosos, os moradores de rua, os menores abandonados, os prostituídos, não tanto para que voltem às nossas igrejas, onde muitas vezes não se sentam acolhidos, mas para que sintam o amor gratuito de Deus Pai e Mãe, através de nosso amor fraterno. Tantas pessoas hoje estão excluídas de vida humana digna, tantas pessoas perderam ou nunca tiveram noção de seu valor como pessoa humana e filho de Deus. Não se trata de colocar todos numa igreja, mas sim, de inseri-los numa sociedade justa e verdadeiramente fraterna, sem guerra, sem injustiça, sem discriminação, onde cada um pode com liberdade viver sua dignidade humana. É esta a mensagem de Jesus de Nazaré: Ele quer uma Nova Humanidade vivendo, não na opressão e exploração, mas sim na fraternidade respeituosa dos direitos de cada um. As pessoas só poderão acreditar no imenso amor de Deus se nós as amamos como Jesus nos amou: total e gratuitamente.